
Encontro reuniu especialistas para discutir os desafios da prevenção, do tratamento e da redução de riscos associados ao consumo de álcool
A prevenção do consumo nocivo de álcool, as respostas terapêuticas e a responsabilidade das instituições perante um problema com consequências na saúde pública estiveram em destaque no XIV Congresso da Sociedade Portuguesa de Alcoologia, que decorreu a 15 e 16 de outubro, na Antiga Fábrica Vasco da Gama, em Matosinhos.
Sob o mote «Nova Etapa, Novos Rumos», o encontro promoveu a reflexão e a partilha de conhecimentos sobre os desafios atuais da alcoologia, numa altura em que os indicadores nacionais continuam a evidenciar o impacto do consumo de bebidas alcoólicas na saúde, na segurança rodoviária e na vida das famílias.
O vice-presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Carlos Mouta, participou como orador na tertúlia «Álcool em Portugal: Entre Liberdade Individual, Regulação e Responsabilidade do Estado», integrada no programa do primeiro dia. A sessão colocou em discussão uma questão central para as políticas de prevenção: até que ponto o consumo de álcool pode ser entendido como uma escolha individual e de que forma essa liberdade se articula com a proteção da saúde pública e a responsabilidade do Estado.
Os dados nacionais apresentados no contexto da discussão evidenciam a dimensão do problema. Em Portugal, foram contabilizados 14 762 internamentos com diagnóstico principal ou secundário atribuível ao álcool, em 2024. No mesmo ano, registaram-se 2526 utentes em tratamento por problemas relacionados com o consumo de álcool, enquanto, em 2023, foram contabilizadas 128 mortes por doenças atribuíveis ao álcool. Os indicadores apontam para consequências que ultrapassam a esfera individual e se estendem aos serviços de saúde, às famílias e à sociedade.
A relação entre o consumo de álcool e a sinistralidade rodoviária constituiu igualmente uma dimensão relevante do debate. O consumo de bebidas alcoólicas pode comprometer a capacidade de condução e aumentar o risco de acidentes, reforçando a importância da prevenção e da sensibilização para comportamentos responsáveis.
A iniciação precoce e os padrões de consumo excessivo entre os jovens estiveram também entre os aspetos que ajudam a enquadrar a dimensão do fenómeno em Portugal.
De acordo com o Inquérito Nacional aos Jovens Participantes no Dia da Defesa Nacional de 2024, entre 70% e 80% dos jovens de 18 anos inquiridos tinham consumido álcool nos 12 meses anteriores. Cerca de metade referiu episódios de consumo excessivo numa única ocasião, frequentemente designados por binge drinking, enquanto entre 30% e 40% indicaram episódios de embriaguez severa. Aproximadamente 30% relataram problemas associados ao consumo de álcool.
Também o estudo europeu ESPAD de 2024 identificou sinais de iniciação precoce: 31% dos estudantes portugueses de 16 anos abrangidos pelo estudo afirmaram ter consumido álcool pela primeira vez aos 13 anos ou antes. Os resultados sublinham a importância da prevenção junto dos mais novos, da literacia em saúde e da intervenção atempada perante comportamentos de risco.
O congresso decorreu ao longo de dois dias, com um programa dedicado a diferentes dimensões da alcoologia, desde as políticas públicas e a redução de riscos até às abordagens clínicas e às vulnerabilidades sociais associadas ao consumo.
No primeiro dia, os trabalhos começaram com a mesa «Inovar em Alcoologia: Respostas Diferenciadas para uma Intervenção Integrada», seguindo-se a sessão de abertura e a conferência «A Realidade Portuguesa na Perturbação de Uso do Álcool: Desafios Atuais e Novas Respostas». A tertúlia sobre liberdade individual, regulação e responsabilidade do Estado integrou o período da manhã.
Durante a tarde, a programação prosseguiu com a mesa «Redução de Riscos e Minimização de Danos no Álcool: O Que Podemos Esperar?», as comunicações livres e a mesa «Novas Abordagens Terapêuticas: Entre a Evidência e a Prática Clínica». O primeiro dia terminou com a comemoração dos 40 anos da Sociedade Portuguesa de Alcoologia e a realização da assembleia geral da instituição.
O dia de hoje começou com a mesa «A PHDA e o Álcool» e as comunicações livres, seguindo-se a conferência «Suplementação em Alcoologia: Uma Necessidade» e a tertúlia «As Dificuldades no Terreno: Perspetivas e Soluções».
Durante a tarde, o programa centrou-se na relação entre neurocognição, cognição social e recuperação das perturbações por uso de álcool, bem como na ligação entre consumo, vulnerabilidade social e prevenção. A mesa «Para Além da Abstinência: Neurocognição, Cognição Social e Recuperação das PUA» foi seguida da sessão «Álcool, Vulnerabilidade Social e Prevenção». A entrega de prémios e a sessão de encerramento concluíram o encontro.
Ao reunir diferentes perspetivas sobre a prevenção, a intervenção clínica e as respostas sociais, o XIV Congresso da Sociedade Portuguesa de Alcoologia procurou contribuir para a discussão dos desafios colocados pelo consumo de álcool em Portugal e para a reflexão sobre estratégias de intervenção mais integradas, ajustadas às necessidades das pessoas e aos impactos do fenómeno na comunidade.
