
Instalação inspirada na antiga refinaria de Matosinhos integra a programação do Festival Iminente
O projeto multidisciplinar “Ricochete”, criado a partir da antiga refinaria de Matosinhos, vai ser apresentado no Festival Iminente, em Lisboa, entre os dias 17 e 20 de setembro. A obra, que cruza som, imagem e memória industrial, integra a programação da edição que assinala os 10 anos do festival, na antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila.
Criado pelos músicos António Rafael, Luís Fernandes e Miguel Pedro e pelo artista plástico Miguel C. Tavares, “Ricochete” nasceu do contacto direto com o espaço da antiga refinaria da Petrogal, em Leça da Palmeira, durante o processo do seu desmantelamento. A equipa realizou várias visitas ao complexo industrial, em colaboração com os responsáveis pelo desmantelamento, recolhendo sons, imagens e outros elementos que viriam a constituir a matéria-prima da criação artística.
No Festival Iminente, “Ricochete” assume a forma de um tríptico imersivo, convocando o público para uma experiência onde a dimensão sonora e visual da antiga refinaria é reinterpretada a partir dos vestígios de um território industrial em transformação.
A instalação parte, em particular, da experiência dos antigos tanques de armazenamento de combustível e matérias-primas. A arquitetura destas estruturas revelou uma riqueza acústica singular, explorada pelos artistas através da captação e manipulação de sons, da utilização de sintetizadores e de outros instrumentos eletrónicos.
O resultado é uma criação em que os sons e as imagens recolhidos na refinaria deixam de ser apenas documentos de um espaço desaparecido para se transformarem em matéria artística. Os ecos, ruídos, vibrações e volumes da antiga infraestrutura industrial são recriados numa experiência contemporânea que coloca em diálogo memória, território, arquitetura, som e imagem.
A obra parte da ideia de que o desaparecimento de uma infraestrutura industrial não significa o desaparecimento daquilo que ela deixou no território. Uma refinaria pode encerrar a sua atividade, mas permanecem as marcas físicas, as paisagens, as memórias e também as frequências e ressonâncias produzidas durante décadas. Em “Ricochete”, o som torna-se, assim, uma forma de memória e também uma espécie de ruína imaterial.
A componente visual acompanha esta dimensão sonora através de registos que refletem a escala, a arquitetura e a paisagem da antiga refinaria e de um território que atravessa um profundo processo de transformação. Em vez de procurar uma reprodução documental do espaço, o projeto propõe uma reinterpretação artística da memória industrial de Matosinhos.
A instalação convida, deste modo, a uma reflexão sobre a memória coletiva associada à refinaria e sobre a forma como antigas paisagens industriais podem continuar a integrar a identidade cultural de uma cidade, mesmo depois de perderem a função para a qual foram construídas.
A apresentação em Lisboa acontece depois de “Ricochete” ter estreado este ano na Antiga Fábrica Vasco da Gama, em Matosinhos, aproximando agora esta criação de um novo público através de um dos principais festivais dedicados às expressões da cultura urbana contemporânea.
