
Instalada no antigo Hospital de Matosinhos, tem capacidade para acompanhar cerca de 100 jovens
O Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) inaugurou ontem, em Matosinhos, uma nova unidade especializada no tratamento do chamado “gaming” problemático, uma resposta pioneira direcionada sobretudo a adolescentes e jovens adultos.
A estrutura, instalada no antigo Hospital de Matosinhos, na Rua Alfredo Cunha, tem capacidade para acompanhar cerca de uma centena de jovens num período entre 18 e 24 meses e poderá servir de modelo para a expansão deste tipo de resposta a outras regiões do país.
A cerimónia de inauguração contou com a presença da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, da presidente do ICAD, Joana Teixeira, do presidente da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Nelson Pereira, e do vice-presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Carlos Mouta.
A nova unidade funciona no âmbito do Centro de Respostas Integradas (CRI) Porto Ocidental e dispõe de uma equipa multidisciplinar composta por psiquiatras e pedopsiquiatras. Numa primeira fase, a referenciação dos utentes será efetuada através dos médicos de família.
Segundo o coordenador do programa, o psiquiatra Mário Santos, a procura por este tipo de apoio tem vindo a aumentar nos últimos anos, embora de forma dispersa pelas diferentes unidades do ICAD. O responsável revelou que já foram identificadas várias dezenas de casos a nível nacional e acredita que a nova resposta permitirá chegar a um número significativamente superior de jovens na região Norte.
Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde desde 2018 como uma perturbação associada às dependências comportamentais, o gaming problemático caracteriza-se pela utilização excessiva e descontrolada de videojogos e jogos online, comprometendo áreas essenciais da vida quotidiana, como o desempenho escolar, a atividade profissional, a convivência familiar e as relações sociais.
De acordo com Mário Santos, um dos principais sinais de alerta é a perda de controlo sobre o tempo dedicado ao jogo, acompanhada do abandono progressivo de atividades importantes e da diminuição da capacidade de sentir prazer noutras experiências. O especialista alertou ainda para a associação frequente desta problemática a situações de ansiedade, sintomas depressivos, perturbações do sono e alterações dos hábitos alimentares.
Uma das características distintivas da nova unidade é o facto de abranger jovens a partir dos 12 anos de idade. Segundo a presidente do ICAD, Joana Teixeira, esta opção resulta da evidência científica que aponta para o aparecimento cada vez mais precoce destes comportamentos.
O modelo de intervenção prevê um acompanhamento em regime ambulatório durante oito a dez meses, através de sessões individuais, complementadas por um período adicional de um ano de seguimento. O programa inclui ainda uma forte componente de terapia familiar, procurando envolver pais e cuidadores no processo de recuperação e dotá-los de ferramentas que facilitem a mudança de comportamentos.
Além da intervenção clínica, a unidade desenvolverá trabalho nas áreas da investigação, da promoção da literacia em saúde e da prevenção dos comportamentos aditivos relacionados com os videojogos e o ambiente digital.
Embora o principal foco esteja centrado nos jovens entre os 12 e os 24 anos, a equipa garante que a resposta está preparada para acolher pessoas de outras faixas etárias, estando igualmente prevista a criação de intervenções em grupo sempre que a evolução dos casos o justifique.

