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C.M Matosinhos

História dos Piratas em Matosinhos

 
 
Os ataques dos vikings, aos quais se vão acrescentar nessa época as incursões, assaltos e pilhagens perpetrados por embarcações mouras, acabarão por condicionar a própria localização dos povoados. Não é por acaso que o núcleo mais antigo de Matosinhos não se situa à beira-mar, mas sim em Bouças, um pequeno vale, profundo e suficientemente escondido dos olhares de quem, no mar, procurava em terra alvos para os seus ataques e roubos. Será só depois da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, e da maior segurança que tal representou para estas costas, que se começarão a desenvolver alguns dos mais importantes povoados costeiros, como foi o caso de Matosinhos e Leça da Palmeira.

A “reconquista” cristã de todo o território português não impedira os “piratas da Barbária”, oriundos de Granada, de Marrocos e do restante norte de África, de continuarem a desenvolver a sua atividade junto das nossas costas. Mas, entretanto, e nomeadamente no século XIV, os portugueses respondiam com o incremento dos corsários. Isto é, de piratas ao serviço de grandes senhores ou da própria coroa, tendo na maior parte das vezes como alvo as embarcações dos “gentios”. De resto, as “cartas de corso” atribuídas pelo rei e através das quais este dava autorização para a sua prática, eram de inegável importância para a economia da nobreza.

Um dos mais poderosos senhores da época, nesta região, João Rodrigues de Sá, alcaide-mor do Porto e donatário de Matosinhos, tinha aqui fundeados barcos de corso. Mas não era caso único. Outros fidalgos utilizavam esta terra para aportarem as suas caravelas de corso. Caso, no século XV, de Fernão Coutinho, que aqui possuía uma embarcação pirata causadora de muitos distúrbios. Fernão Coutinho que, muito provavelmente em resultado das suas relações com esta terra por causa dos seus interesses no corso, se tornaria num dos principais padroeiros do convento de Nossa Senhora da Conceição (a atual Quinta da Conceição).

De localidade vítima da pirataria, Matosinhos e Leça transformavam-se, assim, num porto de piratas.

Um outro caso de um pirata que, se não nasceu em Matosinhos para aqui terá vindo viver muito cedo e aqui casou com a filha de João Rodrigues de Sá, e que se viria a notabilizar e a transformar-se num dos heróis da expansão portuguesa, foi João Gonçalves Zarco: o “descobridor/povoador” da Madeira e seu primeiro donatário.

A partir do século XVI Matosinhos voltará, contudo, a sofrer com a pirataria estrangeira. As outras nações europeias passam a concorrer com portugueses e espanhóis pelo domínio do mar e das mais importantes rotas comerciais e, para tal, recorrem ao corso e pirataria para atacar os nossos navios regressados do Brasil, das Ilhas, da Índia e das Américas. Primeiro serão os franceses. Só para a área que nos interessa (a dos portos de Matosinhos e Leça, S. João da Foz, Massarelos, Miragaia e da própria cidade do Porto) há registos de 39 embarcações perdidas para os corsários franceses até meados do século XVI. Seguir-se-ão os holandeses e ingleses, com destaque para o famoso Francis Drake (conhecido entre as comunidades marítimas portuguesas como “o Draco”). De 1623 a 1639 os holandeses capturarão 547 navios portugueses, todos carregados. E, só no ano de 1647, do total anual habitual de cerca de 300 navios envolvidos no comércio marítimo, 249 serão atacados por piratas. O comércio marítimo, com claras implicações em Matosinhos, vive uma situação catastrófica. Em parte se explica, assim, a fé renovada que então se regista em torno do Senhor de Matosinhos.

Mas, nesta época, também os piratas da Barbária continuam muito ativos. E serão eles, de resto, os “responsáveis” pela origem, ou pela mais antiga referência que possuímos, daquela que até à atualidade se converteu numa das mais importantes e tradicionais características da romaria do Senhor de Matosinhos: o da festa ser acompanhada por uma importante feira. Com efeito, em 1621, a Confraria da Misericórdia de Matosinhos obtém do rei Filipe III, a concessão de uma feira franca (livre de restrições e taxas fiscais) durante os três dias das festas do Espírito Santo (isto é, do Bom Jesus de Matosinhos). O pretexto utilizado foi a falta de comércio e de pescaria que então afetava a povoação porque muitos dos seus barcos e pescadores haviam sido capturados por piratas oriundos do norte de África.

Dessas terras distantes, tais cativos cristãos só seriam resgatados por dinheiro enviado pelas suas famílias ou pelas suas comunidades. E as Misericórdias, como a de Matosinhos, tiveram aí um papel importante.

Não se pense, aliás, que este era um fenómeno apenas matosinhense. Depois da peste, e utilizando a expressão do famoso historiador Jean Delumeau (La peur en Occident), este tipo de pirataria era a segunda causa dos pavores coletivos que o ocidente conheceu entre os séculos XVI a XVIII.

Foram, também por isso, tempos onde circularam muitos rumores e boatos de invasões de piratas e de prevenção contra possíveis assaltos. Mal chegava ao Porto e ao seu Termo (incluindo Matosinhos) notícias de investidas como as que Drake realizou na Corunha, em Cádiz ou Lisboa, o alerta e as preocupações defensivas acentuavam-se. Fogueiras eram acesas nas praias e nos locais mais elevados da costa (com destaque para a atalaia do Monte S. Gens, em Custoias) para deste modo se vigiar o mar de dia e de noite, permitindo também um rápido alerta através de sinais de fumo e de fogo. Também se patrulhavam e vigiavam as praias e é igualmente neste contexto, e não apenas no da Guerra da Restauração da Independência, que devemos entender de igual modo a construção, no sec. XVII, dos fortes de S. Francisco Xavier (o “do Queijo”) e de Nossa Senhora das Neves (o “Castelo de Leça”), destinados a impedir qualquer tentativa de desembarque no extenso e “convidativo” areal da enseada de Matosinhos/Leça.
No século XVIII - época áurea da pirataria nas Caraíbas – os barcos e as costas portuguesas continuarão a ser objeto da cobiça de piratas e corsários. As embarcações carregadas de ouro e de outras preciosidades vindas do Brasil eram, com efeito, um alvo muito desejado. Mas não era só o ouro proveniente do sul da América que, no século XVIII, aqui faz atrair os piratas. Na sequência do famoso Tratado de Methwen e do forte incremento então registado no negócio e transporte dos vinhos do Douro (ou do Porto) para Inglaterra, as costas de Matosinhos e do norte de Portugal registam uma maior animação na navegação comercial… e, consequentemente, da pirataria. E nem os pequenos barcos do comércio local ou mesmo dos pescadores escaparão à rapina. Uma rapina que, não raras vezes, não se faz apenas no mar. São, com efeito, também frequentes as incursões em terra, saqueando as pequenas povoações ou quintas isoladas próximas do litoral. Desses tempos ficou, entre nós, a memória toponímica da “Praia dos Ladrões”, antiga designação da Praia da Memória, evocando a sua antiga utilização como local de desembarque de piratas que atacavam, roubavam e tornavam cativos os habitantes (ou desacautelados viajantes) destas praias então desertas e dos seus arredores.