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C.M Matosinhos

Memórias do Teatro Constantino Nery

constantinonery_memorias1.jpgO Teatro Constantino Nery foi construído numa época em que a existência de uma casa de espetáculos era considerada mais do que um equipamento de lazer, uma verdadeira marca da «Civilização» e em que a afirmação de uma cidade perante as suas congéneres passava, em grande medida, pelo facto de dispor de um teatro que pudesse ser um símbolo da prosperidade e do dinamismo económico e social da cidade.
 
Neste período, nas localidades com maior índice de crescimento económico, assiste-se a um surto de construção de casas de espetáculo e mesmo numa cidade situada nos confins da selva Amazónica – Manaus – é erguido um ambicioso teatro de ópera, símbolo da prosperidade da indústria extrativa da borracha.
É integrado nesta corrente que, em 10 de junho de 1906, é inaugurado, na Avenida Serpa Pinto, em Matosinhos, o Theatro Constantino Nery.
 
Construído por iniciativa de Emidio José Ló Ferreira e batizado com o nome do então governador do estado brasileiro de Manaus, o que evidencia as fortíssimas relações que na época havia entre Matosinhos e o Brasil, o Constantino Nery foi, ao longo de oito décadas, a grande casa de espetáculos de Matosinhos.
 
Em Matosinhos havia, nessa época, uma forte tradição teatral patente, sobretudo, no larguíssimo número de grupos de teatro amador existentes. Particularmente na época balnear, altura em que Matosinhos e Leça se animavam com numerosos veraneantes que aqui acorriam para os banhos de mar, multiplicavam-se os espetáculos teatrais.
Foi neste teatro que se realizaram, logo em novembro de 1906, as primeiras exibições cinematográficas em Matosinhos e que consistiam essencialmente nos chamados filmes panorâmicos, ou seja, pequenos documentários.
 
O cinema era, então, considerado apenas uma curiosidade técnica e um divertimento sem pretensões a tornar-se uma nova forma de expressão artística que pudesse rivalizar com o teatro.
 
Para atrair o público à novidade, estas sessões eram complementadas com números musicais ou de dança.
 
O jornal O Monitor relatava que as sessões do “cynematographo Pathé continuem despertando o mais legítimo sucesso de agrado no nosso theatro. O aparelho magnifico exibe sempre vistas variadas inteiramente novas, uma fixas outras animadas, o que produz um justificado agrado. Somos informados que a empresa contratou um interessante grupo de bailarinas espanholas para preencher os intervallos com as suas danças caracteristicas...”
 
A partir de 22 de setembro de 1907, o Teatro Constantino Nery começa a dedicar-se à exibição regular de películas cinematográficas denominando-se Cynematographo Deslumbrante, alternando o cinema com as representações teatrais.
 
Matosinhos passava, assim, a dispor de uma sala onde se estreariam, segundo afirmava a propaganda da empresa, os filmes que maior êxito tivessem no estrangeiro.
O jornal O Monitor escrevia então que “esta simples notícia por si só basta para sabermos de antemão como vão ser interessantes as sessões e como o «Grand Mond» de Mattosinhos vai ter ensejo de passar bellas noites com as deslumbrantes sessões que há de offerecer a nova empreza.”
 
O primeiro programa cinematográfico apresentado ao público matosinhense constava de:
 
Sessão da tarde:
1. «Aventuras d’um polichinello;
2. Amores d’um preto ;
3. Creança trazida por um anjo
4. Esperando o troco
5. Caverna da bruxa
6. Banho forçado
7. Que cheiro
 
Sessão da noite:
1. Excursão à ilha do Borneo
2. Mão d’artista
3. Novella d’annos
4. Flores animadas
5. No reinado de Luis XIV
6. Um destroyer em perigo
7. Demasiado gordo
 
A partir da década de 30, dá-se uma expansão significativa do cinema em Matosinhos com um considerável movimento de abertura de novas salas em vários locais do concelho.
 
Em 1937 a empresa Sousa &Filho, que era proprietária do Constantino Nery, passa também a explorar um cinema ao ar livre situado nos jardins da Confraria do Senhor de Matosinhos, abrindo, ainda, em 1948 um novo cinema ao ar livre na Rua Brito Capelo com uma lotação de 360 lugares.
 
Mas é, principalmente, durante as décadas de 50 e 60 que esta sala vive o seu período áureo com uma programação cinematográfica regular e diversificada onde se destacam os grandes êxitos do cinema da época, nomeadamente os filmes de aventuras de origem americana e os dramas históricos italianos.
 
No entanto, a partir dos anos 70, a atividade comercial de exibição cinematográfica começa a entrar em decadência. O desenvolvimento das vias de comunicação e da rede de transportes públicos favoreceram a rapidez das ligações com a cidade do Porto.
A falta de filmes em estreias, uma vez que eram apenas exibidas reposições, e a crescente degradação da sala que levou mesmo ao seu encerramento temporário por falta de condições de segurança, levaram ao progressivo afastamento do público que passou a preferir cinemas da cidade do Porto.
Na década de 80 era já apenas uma pálida sombra da grandiosa casa de espetáculos inaugurada no início do século.
A incapacidade em modificar esta situação, levou a que esta sala entrasse num processo progressivo de degradação e decadência que culminaram no seu encerramento e abandono.
 
Continuou, no entanto, na memória de várias gerações de matosinhenses que viveram os dias gloriosos do Constantino Nery, as recordações de inesquecíveis momentos de emoção vividos na tela do cinema, assim como o desejo desta sala voltar a recuperar o seu lugar como uma das principais infraestruturas culturais da cidade.