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C.M Matosinhos

Largo da Viscondessa

O Sítio

Este sítio corresponde ao centro cívico da freguesia de Santa Cruz do Bispo com uma matriz rural mas hoje com um acentuado cariz urbano. Trata-se de um largo que se desenvolve ao longo do extremo da Quinta de Santa Cruz do Bispo onde sucessivamente se localiza a entrada para o Estabelecimento Prisional, o Cemitério, a Igreja matriz e ainda o notável portão de entrada na quinta em cantaria e ferro forjado, encimado pelas armas do Bispo D. José Fonseca e Évora), bancos, cruzes.

Ao longo dos passeios, pontuados por tílias, encontram-se, de forma ritmada, bancos de pedra intercalados com cruzeiros. O largo foi alvo de um projecto de requalificação em 2008 que introduziu uma vasta área pavimentada em laje de granito contida por degraus, no lado poente do largo e localizam-se diversos serviços e equipamentos privados e de iniciativa paroquial tais como a sede da Junta de Freguesia, uma creche, jardim-de-infância e a Casa do Povo e ainda a Capela de Nossa Senhora da Guia.

 

Património Cultural

QUINTA DE SANTA CRUZ DO BISPO (1560—1570) “No concelho de Matosinhos, junto da igreja de Santa Cruz da Moia (que com toda a respectiva freguesia foi doada por D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, aos bispos do Porto) havia no séc. XVI uns passaes que, entre 1552 e 1572, o bispo D. Rodrigo Pinheiro empreendeu transformar em quinta de recreio “solo para divertimento y casa de recreacion de los senhores obispos, seus sucessores, en el tiempo que les diesse lugar los despachos de su oficio”.

Estendia-se então a quinta pelas duas margens do Leça, num sítio em que este rio, sempre bordejado de salgueiros e amieiros, descreve uma apertada curva pelo meio de estreita várzea de aluviões. Elevandose depois gradualmente, culminam as duas abas da quinta em cabeços donde toda ela se domina e onde Dom Rodrigo Pinheiro mandou erigir algumas capelas. Pelas encostas abaixo estendiam-se os bosques, e logo a seguir vinhas, pomares e campos regados pelas águas de numerosas nascentes. O que terá sido a bela quinta logo após os trabalhos a que nela procedeu D. Rodrigo Pinheiro, apenas o podemos hoje avaliar pelas relíquias das obras de arte que ainda por ali andam dispersas, e pelas referências encomiásticas de alguns autores contemporâneos daquele bispo ou de seus imediatos sucessores. Além dos poemas de Cadabale Gravio Calydonio em latim (1568) e de Manuel Faria e Sousa em castelhano (1624-1678), fazem ainda referências ilucidativas a essa quinta o catálogo dos Bispos do Porto de D. Rodrigo da Cunha (1623), e o Episcopológio de Pereira de Novais (N 1690). Pereira de Novais escreveu que “toda la quinta es de tanto recreo y dispuesta con tan excellente direccion, que ni la abbadia del duque de Alva, ni la tapada de la Sereníssima Cassa Real de Bragança, ni aun los pratolinos bosques de la Tuscana, ni Ias huertas Barbarinas de Roma, se puedem loar de excesso; porque, en esta se alla todo lo amaeno destas y Ias excede del transito del rio Leça, que la divide de medio a medio, con que haze mayor el recreo, y lo delicioso de su estación” D. Rodrigo da Cunha classificava a quinta de Santa Cruz de “obra verdadeiramente real, que tem poucas semelhantes neste Reyno, assim no que toca à capacidade e sumptuosidade das casas, que são muitas, e em diversas paragens -da quinta, como nas ermidas de diversas invocações, pomares, hortas, devesas de árvores grandíssimas e copadíssimas, que dando-se pelo mais alto os braços humas às outras de nenhuma sorte admitem o Sol, por mais abrasado que seja”.

Por sua vez Faria e Sousa, escrevendo em tempo de um dos sucessores de D. Rodrigo Pinheiro diz que “á quinta concorriam muchas personas de partes diferentes solo a lograr-se de la vista de cosa tan rara. A lo menos en Portugal no ay aun oy cosa tã grãde de Ias deste genero, por mas que el tiempo la aya disminuido mucho sin embargo de que no constavam estas fabricas de tierra, yesso, veneras, y otros ligeiros materiales de que suelen componerse quintas; sino que todo fue de piedra maziza”.

Toda a vasta quinta foi circundada por alto muro com belos pórticos de granito rasgados nos sítios mais convenientes ao seu acesso, e a primeira nota artística que se depara a quem para ela se dirija é justamente o portão nobre encimado pelas armas de D. Rodrigo Pinheiro (fig. 76). Transposto este portão encontramo-nos num amplo terreiro de planta elíptica, ensombrado pelas copas de carvalhos seculares e rodeado de bancos de pedra, como que a oferecerem um primeiro momento de repouso ao visitante. A seguir desce para Nascente, em direcção ao paço e em declive suave, uma vasta alameda –“a rua do anjo” (fig. 77) — ladeada ele dois muros de altura meã que outrora foram revestidos de azulejos.

Sensivelmente a meio desta rua depara-se ainda hoje com uns restos de antigas construções (fig. 79) que supomos terem pertencido à ermida dos anjos Miguel, Gabriel e Rafael, que segundo Faria e Sousa estava como o palácio “em medio de los jardines, frutales, ca,pos, vinhas”, juntamente com “fuentes, lago de prazer e casa de fieras”. Justamente à ilharga e à rectaguarda dessas ruínas, estende-se um terreno de forma quase rectangular com restos de obras de arte nos respectivos ângulos e que nos parece seria o local mais adequado para aqueles “bosques de naranjos, cidros y atros arboles de fructos de muchas castas y regalos que D. Rodrigo plantó con mucha orden”. Termina a “rua do anjo” com um pequeno alargamento em frente a outro pórtico (fig. 82) que se abre para um pátio murado anexo ao palácio e que dá comunicação, por um lado para os jardins situados a Sul da habitação, e pelo outro para um vasto terreiro localizado ao lado Norte do mesmo edifício.

Do jardim apenas restavam no princípio deste século os muros em ruínas, alguns bancos desmantelados e a taça em granito desconjuntada. A habitação, — durante muito tempo conhecida pela designação de palácio de Dona Mafalda —, parece ter sido toda do tempo de D. Rodrigo Pinheiro, cujas armas sobrepujavam a fachada de um dos corpos do edifício que dá para o terreiro. À sua arquitectura se referiu Varia e Sousa nas seguintes rimas:

“Mas ya se ven Ias casas levantadas

por Ia correspondiente architectura

con mil remates varios coronadas

de angular y de espherica figura

donde de si se vencer los cinzeles

y en tablas interiores diestros Apelles”.

À frente da casa situa-se ainda hoje o tradicional terreiro, que então era enquadrado lateralmente por dois pavilhões simetricamente dispostos, e, provavelmente do lado oposto ao ediflicio, por uma das sete fontes descritas por Calydonio; — talvez a “fons vestíbulí pro foribus aedium” ou fonte do terreiro. Daqui irradiavam duas ruas principais: uma para Noroeste em direcção ao exterior da quinta (a “rua do padrão”— que terminava de encontro a mais um pórtico), e outra para Noroeste até entroncar na rua de S. Brás que atravessava a quinta em direcção à capela deste Santo.

Estas, eram “las nobilíssimas casas episcopales con sus entradas, pateos, jardines, e à volta bosques de naranjos, cidros y los otros arboles desta Esfera, i Ia Herrnita de Nuestra Señora, de los Angeles”, de que fala Faria e Sousa.

Por toda a quinta construiu ainda D. Rodrigo Pinheiro «en diversas partes y estancias a proporcion, con grande architectura, costosas fuentes, estanques y chafarizes de frigidíssima agoa, con Ia variedad de escupir el agoa por bocas de diferentes monstros y serpientes, con carrancas de selvajes brutos, y muchas de leones, en que se admira la copia del caldal de agoa, toda pura y clara y sobremanera frigidíssima, como lo especifica un disticho que a la entrada deste delicioso bosque, en el camino que va a la hermita de San Blas, donde se lee esta paremia,... puesta en un cruzero a la entrada desta amena tapada: si premir ora sitis, gelidas te confer a dundas Quas tibi non parce villa nemusque dabunt».

De sete dessas fontes deixou-nos Cadaval Gravio uma referêncía em versos, onde designa, uma por uma, a do terreiro, a do souto, a da aveleira, a da pedreira, a fonte nova, a arca das fontes ou fonte grande e uma outra que não possuia nome distintivo (fig. 78)

Segundo refere Pereira de Novais, ”muchas hermitas y oratorios de advocacion de diferentes Santos sus advogados y devotos, dispuso en este recreo su ilustrissima, para retiro y sossego de su spirito”. Já referimos a ermida da Sra.dos Anjos e a dos Miguel Rafael e Gabriel, ambas construídas no interior da quinta, próximo do palácio. Faria e Sousa refere ainda outras cinco, que foram coroar outros tantos montes situados à volta da quinta.

“En essos cinco Montes exteriores

al circulo cerrado de la Quinta

diestra mano, de estudios superiores

levanta, esculpe, pule dora i pinta

Basílicas, Imagenes i Altares

raros en vista, en precio singulares”.

Em primeiro lugar aparece-nos a da Senhora da Guia “de dõde se descubre el mar, i a dõde los navegantes vienê a oferecer votos: en el mõte a vista della esta un pulpito, i uma barca de piedra”. Esta capela que foi provàvelmente mandada construir por mareantes e reedificada pelo bispo D. Rodrigo Pinheiro, substituiu em 1756 a igreja paroquial enquanto durou a reedificação desta. Na “Europa Portuguesa” (tomo III- parte 3ª, cap. XIII) Faria e Sousa denomina a capela de Sra. da Graça, dizendo que serve de farol aos navegantes e acrescenta que nela existem várias coisas marítimas: votos e ofertas de navegantes, sendo o seu verdadeiro título o de Sra. das Neves.

“En frente en otro mõte está la de Santo Isidoro, S. Cosme e S. Damian e en otros dos mõtes bien distãtes al Norte estã otras dos hermitas de S. Blas i S. Sebastiao: entre elas una fuente; i la estatua de Hercules matando al leõ Nemeo. La maça es formada de un pino; aviendo-se atendido a hazer del e del Leõ el escudo de armas del obispo Piñeiro”. Essa fonte terá sido demolida quando a rua de S. Brás, transformada em caminho público, foi prolongada para além das capelas, sendo a estátua de Hercules removida para o cimo de um cabeço vizinho.

Havia ainda “uno otra hernuita q se lhamava del Huerto de Cristo”, que segundo refere Faria e Sousa teria sido desmantelada pouco depois de 1582 pelo bispo Fr. Marcos de Lisboa, com a ideia de a transportar para outra quinta que estava ordenando junto ao rio Douro, acabando, porém, por ficar por ali pedras e estátuas estendidas pelo chão, e algumas feitas em pedaços.

Encontrando-se as estâncias a que estas capelas e fontes comunicavam maior interesse, dispersas pelos sítios que a Natureza tinha aconselhado, necessário se tornava assegurar-lhes acesso por meio de caminhos de percurso tão fácil e agradável quanto possível. Assim foi que ordenou ainda o mesmo bispo “muchas calles de Myrtos e boxes para transitos de unos y otros Santuários, y, sobre todo, assi mesmo, plantó mochos arboles grandíssimos, altos y coposos, que enlazando-se en el ayre unos con otros, y enredando-se en lo copioso de Ias ramas, forman un pavellon de sombra, con que impiden el passo a los rayos del Sol, en el verano, para recreo de los que por debaxo passar; y florescen con vistosa vista, dando sombra amena a los Caminantes”.

“Mil varias calles se hallan encontradas abiertas con industria entre vergeles que en la vaga region communicadas de frondoso esmeralda sor doceles donde la vista humana el ciclo pierde Ó piensa que su azul se ha vuelto en verde”

Seriam aqueles os buxos a que se referia Pinho Leal quando escreveu que havia aqui uma bela e raríssima mata de gigantescos buxos, os maiores de Portugal e o maior ornamento e notabilidade da quinta, e que, sendo bispo do Porto, o abade de Fonte Boa — D. Jerónimo José da Costa Rebelo (o canaveta) destruiu e exterminou estes formosíssimos e admiráveis buxos, que tinham muitos séculos de existência, vendendo-os em 1844 por uma ridicularia aos torneiros do Porto.

A ruína da quinta de Santa Cruz do Bispo começou logo com os imediatos sucessores de D. Rodrigo Pinheiro, pois tendo este falecido em 1572, já D. Gonçalo Morais, que para ali em 1602, teve de proceder obras de restauro, notando Faria e Sousa que o tempo lhe havia diminuído muito a sua antiga grandeza, embora as suas edificações fossem de pedra maciça e não de terra, gesso ou outros materiais ligeiros de que costumavam construir-se as quintas.

Os bispos que se seguiram não foram nada zelosos na conservação de uma obra de arte, que só para eles o seu antecessor D. Rodrigo Pinheiro havia criado. Com a instalação aí, em 1913 do Posto Agrário do Minho Litoral, a quinta sofreu novo golpe no seu interesse artístico e documental, pois embora se tenham realizado notáveis obras de restauro em muros, fontes, tanques, ruas e outras obras de arte não se soube realizar a sua adaptação às novas funções, sem comprometer o interesse histórico-artístico da quinta.”

“Desde 1939 na posse do Ministério da Justiça que fez dela Colónia Penal da Cadeia Civil do Porto, a Quinta de Santa Cruz do Bispo sofreu profundas obras de adaptação, quer ao nível do palácio, quer ao nível do seu território. A história da Quinta de Santa Cruz de Riba Leça, como era conhecida, é muito longa, remontando à Infanta D. Mafalda, a filha de D. Sancho I, que se dedicou à vida monástica. A Infanta Santa doou os terrenos da propriedade à Sé do Porto, que os conservou na sua posse durante longo tempo. Mas foi durante o bispado de D. Rodrigo Pinheiro (1552-1572), que a Quinta conheceu grandes melhoramentos. A casa tornou-se uma "verdadeira mansão real" (FELGUEIRAS, 1958, p. 143) e o espaço oferecia tal magnificência que foram muitos os poetas e os escritores que não se cansaram de admirar, nos seus escritos, a beleza das árvores, das hortas, do bosque, ou das fontes. Entre eles, encontram-se Luís de Camões, Frei Luís de Sousa, Frei Bartolomeu dos Mártires, Barbosa Machado ou Cadabal Gravio (FELGUEIRAS, 1958, p. 144).

Assim, nesta fase, Santa Cruz do Bispo encontra-se directamente ligada à figura de D. Rodrigo e a muitos dos vultos da cultura seiscentista que por lá passaram (PACHECO, 1986, p. 154).

A Quinta continuou a servir os prelados portuenses que, no verão, procuravam o sossego e a paz para as suas meditações, aumentando progressivamente a sua área e sumptuosidade. Neste sentido, e entre 1741 e 1752, Santa Cruz do Bispo conheceu nova intervenção em que se destacou a figura do Bispo Frei José da Fonseca e Évora. Terá sido este prelado que contratou Nicolau Nasoni para remodelar a Casa e a Quinta. Contudo, a sua morte, em 1752, terá obrigado à interrupção das obras.

A entrada principal da Quinta encontra-se no eixo da Casa. O seu conjunto é composto por um arco trilobado, encimado pelo brasão do Bispo Frei José da Fonseca e Évora. Ladeiam o portal dois nichos de forma oval. A Casa, também conhecida como Palácio de D. Mafalda, denota igualmente alguns elementos característicos de Nasoni, como os cunhais rusticados que recordam as portas da Torre da Prelada e da Bonjóia, os elementos assimétricos por cima dos cunhais, evocativos da escada de Fafiães, ou o motivo que serve de remate às duas janelas da fachada da ala oeste, muito semelhantes aos parapeitos laterais da igreja dos Clérigos ou da fachada do Palácio do Freixo (SMITH, 1967, p. 152).

Muito embora a intervenção de Nasoni tenha sido interrompida, e este não tenha concluído a intervenção inicialmente prevista, os elementos por si delineados são suficientemente fortes para marcar a paisagem e a arquitectura da Quinta, estabelecendo ainda relações com outras obras suas, na cidade e arredores por Porto.”

 

Património Natural

Os passeios do Largo da Viscondessa são ladeados por exemplares notáveis de Tilia tomentosa, vulgarmente designados de tília-prateada devido à coloração conferida pelos pêlos estrelados presentes na página inferior das folhas. É uma bela árvore de alinhamento, muito decorativa, sendo por isso frequentemente utilizada em parques e jardins, sobretudo no Norte e Centro do país. A floração de um amarelo pálido aparece no fim da Primavera até ao início do Verão. É aromática e nectífera, com propriedades medicinais. Os frutos, em forma de cápsula e cor verde pálido, dão ainda mais originalidade a esta magnífica árvore.

 

Acessibilidade

A4, saída para a VRI em direcção a Santa Cruz do Bispo até ao Largo da Viscondessa.